A arte como linguagem no Centro Espírita

Líralcio Alves Ricci*

Arte é linguagem que serve para expressar, desenvolver e comunicar qualquer conteúdo, em qualquer contexto. Enquanto linguagem, a Arte apresenta algumas características específicas que interessam de modo especial ao contexto do Centro Espírita, como o uso criativo da linguagem simbólica, a capacidade de emocionar e despertar para aspectos transcendentais da existência humana.

Por todos esses motivos, pode ser a Arte um valioso instrumento de comunicação, tanto no contexto interno da Casa Espírita, como na difusão de aspectos doutrinários para o público externo; os não espíritas, cujo interesse pelo Espiritismo pode ser despertado por uma obra de arte impregnada de doutrina num contexto ficcional, simbólico ou didático, pois a diversão pode ser veículo de conhecimento e reflexão.

Existem inúmeras formas de inserir a linguagem artística nas atividades da Casa Espírita, as mais frequentes são a música para harmonização de ambiente para palestras e reuniões, a formação de corais que abrilhantam os eventos públicos, ou as apresentações públicas de teatro e cinema. A psicopictografia é praticada em algumas casas, bem como a psicografia de poemas; alguns Centros têm grupos de teatro ou utilizam músicas, dramatizações e contação de histórias na Evangelização infantil. Na  maioria  delas,   porém, essas   atividades   ficam   por conta de alguns entusiastas, sem maior integração à dinâmica geral da casa.

Por outro lado, quando se comenta sobre função e utilidade, o primeiro entendimento é de que a Arte Espírita pode servir à Doutrina como instrumento de propaganda e divulgação. Sim, certamente. Mas será essa a única possibilidade?

Na realidade a Arte é instrumento de comunicação direcionado a um público – o espectador nas artes cênicas, o leitor na literatura, o observador nas artes plásticas, o ouvinte na música – porém existe outro efeito, resultante direto do fazer artístico, que é o efeito transformador da Arte sobre o artista, resultante das disciplinas, estu-dos e reflexões a que se dedica, no intuito de aprimorar sua técnica. Fazer arte, seja o artista profissional ou diletante, é uma das formas mais eficazes para desenvolver a sensibilidade e ampliar visão de mundo.

Ao propor uma reflexão sobre o assunto, nosso propósito é sinalizar possíveis caminhos e sugerir algumas formas de aplicação.

Validade da Arte como instrumento para o aprimoramento do Ser

A Arte atinge em profundidade o espectador, criando uma experiência inesquecível. Disso resulta um alto índice de assimilação e retenção do conteúdo enfocado.

Por outro lado, quando praticadas coletivamente, as atividades artísticas oferecem oportunidade valiosa para convivência saudável, focada nos objetivos comuns do grupo, seja ele musical, teatral, coreográfico ou um projeto de escrita colaborativa, proporcionando ocasião para troca de informações, conhecimentos e vivências compartilhadas.

O conteúdo tratado com arte pode ser retrabalhado posteriormente, com atividades de revisão e aplicação, estimulando o senso crítico tão caro à Doutrina Espírita. Um evento público repercute externamente, trazendo visibilidade ao trabalho do Centro.

Desse modo, mais do que mero meio de comunicação e lazer, a Arte na Casa Espírita pode ser assumida como caminho para o conhecimento e o autoconhecimento, desenvolvimento da sensibilidade e sociabilização. Tudo girando em torno da Doutrina, a ser colocada como o objeto central, inspirador e estimulador da criatividade, como propôs Kardec, em Obras Póstumas.

Arte no Centro Espírita – Uma proposta de abordagem

Estabelecer diálogo colaborativo entre integrantes de cada atividade artística com os coordenadores de todas as atividades doutrinárias, de modo que o grupo de arte se sinta integrado e alinhado com os propósitos da casa.

Incentivar o estudo doutrinário entre os integrantes do grupo de arte, convidando-os a participarem dos cursos e atividades mediúnicas.

Inserir a linguagem artística no instrumental pedagógico utilizado na casa com crianças, jovens, adultos e idosos.

Promover análise crítica colaborativa dos trabalhos artísticos, com vistas ao aprimoramento formal e ao alinhamento doutrinário.

Revisar os repertórios dos corais e grupos cênicos, com vistas à inserção de obras de conteúdo espírita, sejam músicas, peças ou coreografias.

Identificar talentos entre os frequentadores. Pode ser que entre os frequentadores da casa existam pessoas com vivências e conhecimentos valiosos, que possam contribuir com sua expertise para o crescimento dos grupos incipientes.

* Lirálcio Alves Ricci é Diretor do Departamento de Arte da USE SP.

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