Espiritismo e política: o que fazer ?

Allan Kardec Pitta Veloso*

Escrever sobre Espiritismo e Política exige lembrar no mínimo, alguns fundamentos básicos da Doutrina Espírita e da Política. Gostaria de abrir uma clareira nesse cipoal de ideias tão intrincadas, mas sei que em um artigo apenas não é fácil. Vamos começar por conceituar o que é a Política. Sabemos que existem inúmeros conceitos interessantes e diferentes, mas vamos usar aquele que diz ser ela a ciência da busca do bem comum, dos homens que vivem em sociedade.

Lembramos que a Política é uma ciência que tem seus fundamentos e métodos próprios de análise, que pode ser observada com dois olhares diferentes conforme Weber, ou seja, como “Ciência ou como Arte”. Ciência para aqueles que estudam os fenômenos políticos e tentam interpretá-los à luz da razão através de pesquisas e arte para aqueles que são os agentes políticos ou públicos como legisladores e executivos, que tratam das questões públicas, que acontecem nos municípios, Estados e União, e também os que trabalham nas organizações não governamentais, tais como as associações de bairros, de profissionais, de idosos, defensores do meio ambiente e outras.

Uns pesquisam e estudam os fatos e as relações políticas, outros fazem política na prática, independente de estudá-las ou não.  As áreas de interesse são entre outros, o de como o poder se articula na sociedade, ou seja, quem decide e como decide as ações que vão atingir a todos, a vida em sociedade, a coisa pública, a representação política, as políticas públicas, etc.

Em linhas gerais, a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, é a ciência que tem como objeto central de estudo, o “Espírito imortal” e suas relações diversas com o universo. Ela também tem seus fundamentos básicos, dentre eles destaco a crença em Deus, Jesus como modelo e guia, evolução do espírito, reencarnação, livre arbítrio, fé raciocinada, diversidade dos mundos habitados. Naturalmente podemos discutir esses dois campos e fazer centenas de análises diferentes entre eles e suas relações.

A tudo o que acontece dentro do Universo e no conhecimento humano, pode ser discutido e debatido à luz da Doutrina Espírita, mas quem se disponha fazê-lo, precisa ter conhecimento tanto do Espiritismo em primeiro lugar, quanto do assunto que pretenda debater e relacionar com ela, neste caso a Política.

Isto posto, tanto a Doutrina Espírita quanto a Política (principalmente a ciência política) têm a “racionalidade” como uma ferramenta necessária para a análise ou debate e podemos agregar o uso do bom senso como recomenda Kardec, pois sem elas, não chegamos a um porto seguro. Mas quando se trata das questões políticas, vemos que as paixões, os preconceitos, a ignorância do assunto e o fanatismo falam mais alto, até mesmo no movimento espírita, pois vemos pessoas que só conhecem um dos campos ou nenhum deles, fazendo afirmações fora do contexto, da realidade ou do bom senso, como se fossem doutores nos dois temas, esquecendo a fala de José é  preciso  fazer  o  bem  em  todos  os das relações humanas, inclusive pelas ações políticas que atingem todos nós, seja pelo voto consciente ou pela participação social ativa, responsável e consciente.

A pergunta é como fazer isso tendo como base a doutrina espírita, consequentemente, o cristianismo ? A resposta não é simples, mas é preciso estudar o tema à luz da doutrina, debater as questões sem fanatismo respeitando as interpretações diferentes, facilitando dessa forma, a que cada criatura humana possa agir através do seu livre arbítrio, optando pelas melhores escolhas de como participar dela. Poderão escolher os caminhos pensando no “bem comum” e não nos seus próprios interesses pessoais ou de seu círculo de amigos e familiares.

Defendo a ideia de que a Doutrina Espírita nos convoca a mais um desafio, o de exercer uma cidadania ativa, madura e responsável. Quanto aos apologistas que defendem a omissão dos espíritas na vida pública, lembramos sempre do antigo ditado de que “enquanto o povo não participar da política, ela será fruto do conchavo das oligarquias”, e os resultados disso conhecemos através da história e da atualidade.

Finalizando, deixo um trecho do poema A Vida é uma dança, de André Luiz psicografado por Chico Xavier, que diz: “Toda inércia é um desserviço à obra divina. Há um mundo a ser transformado, seu papel é contribuir para deixá-lo melhor do que você o encontrou. Recursos para isso você tem, só falta a vontade de servir a Deus servindo aos homens”.

* Allan Kardec Pitta Veloso é presidente da USE Regional da Baixada Santista e Vale do Ribeira.

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